Guerra de doutrinas

A doutrina pentecostal é acusada de ser restrita aos primeiros cristãos, no tempo quando eram necessárias as suas manifestações com vistas ao evangelismo. Por sua vez, o movimento pentecostal é apontado como tendo surgido no século 20, o que significa a sua irrelevância durante quase dois mil anos de história do cristianismo, sem contar o desacordo com a interpretação que defende a sua extinção após o período apostólico (o chamado cessacionismo).

Ignorância da história, fazer tais afirmações, além, é claro, do erro hermenêutico. Embora Paulo tenha alertado sobre o abuso no uso de tal dom, o mesmo foi mantido embora com menos ênfase, evidentemente. Montano incentivou a busca do pentecostes, no que foi apoiado por dois dos Pais da Igreja, Tertuliano e Irineu. Com medo dos excessos (o que em si não depõe contra o dom em sí, mas contra a prática), Roma considerou Montano um herege e tudo o que fizera foi desconsiderado, mesmo algum componente positivo do seu movimento.

No quarto século, Agostinho, o mais expressivo teólogo da primeira fase da Igreja, escreveu: “Ainda fazemos o que os apóstolos fizeram quando impuseram as mãos sobre os samaritanos e invocaram o Espírito Santo sobre eles, mediante a imposição das mãos. Espera-se que os convertidos falem em novas línguas”. No mesmo quarto século, Pacômio, fundador do primeiro mosteiro, falava latim e grego, idiomas que não havia aprendido, habilidade que era atribuída ao dom do Espírito e que seria repetida nos séculos quatorze e dezesseis nas vidas de Vincent Ferrer e Francisco Xavier.

Mais de cinqüenta anos antes dos episódios na Azuza Street (1905), há relatos de ocorrência das manifestações pentecostais com o falar em outras línguas em países como Escocia, Suíça, Inglaterra, Armênia, Estados Unidos e Rússia. Além disso, relatos de nomes expressivos de denominações tradicionais como Billy Graham e Dwight Moody (ambos batistas), John Stott (anglicano), Rev. James I. McCord (presidente do Princeton Theological Seminary, presbiteriano), Dr. Ernest Wright (Harvard) e uma contundente declaração feita pelo Rev. Samuel M. Schoemaker:

“Sem importar o que significa o antigo-novo fenômeno do ‘falar em línguas’, o mais admirável é que se declare não apenas no seio dos grupos pentecostais, mas também entre os episcopais, os luteranos e os presbiterianos. Tenho visto pessoas que a têm recebido, e isto as tem abençoado e lhe dado um poder que não possuíam antes. Não pretendo entender este fenômeno. Mas estou razoavelmente certo de que indica a presença do Espírito Santo em uma vida, assim como a fumaça que sai de uma chaminé indica a presença de fogo por baixo. E sei, com certeza, que Deus quer entrar na igreja, corajosa, antiquada e autocentralizada, como geralmente ocorre, para que lhe outorgue uma modalidade de poder que a torne radiante, excitante, altruísta. Deveríamos procurar compreender e ser reverentes para com esse fenômeno em vez de desprezá-lo ou zombar dele.” (The Episcopalian, 15 de maio de 1968).

Esse é um aspecto do cenário que encontramos na fronteira das igrejas pentecostais e tradicionais. O ramo reformado (presbiterianos, igreja reformada e parte dos batistas) mantém a insistência e ênfase exacerbada na doutrina da predestinação. A Bíblia menciona a predestinação e ela é um capítulo dos quatro grandes volumes da obra de Calvino As Institutas. Repito: um único capítulo de uma enorme obra comporta por qiatro volumes. Sabemos que Theodoro Beza, biógrafo de Calvino, foi quem tomou a predestinação como carro-chefe em sua teologia e o próprio Norman Geisler, calvinista, pergunta se “Calvino era calvinista?” (Eleitos, mas livres, Ed. Vida).

De fato não era, como nenhum outro grupo desde o judaísmo até o pós-Reforma enfatizou tal doutrina como a da predestinação. Ainda que Paulo a incluísse no texto aos Romanos e Agostinho fizesse citação, ela nunca recebeu tamanha atenção como no último século, o que para muitos de nós demonstra que há algo errado com isso. Quando leio um livro escrito por um desses calvinistas não tenho como não se lembrar de casos como Ellen White, considerada herege por mitos reformados e mesmo pentecostal (a questão aqui não é esta). Por dar muita ênfase na “guarda do sábado” os adventistas têm sido considerados hereges. E a ênfase na predestinação não dá ocasião à mesma desconfiança? Pessoalmente tenho essa sensação.

Mas por que estou escrevendo isto? Qual a relação entre as línguas, o pentecostalismo, a predestinação e os adventistas? Uma relação que fica mais e mais evidente para mim é que há muitos casos nos quais as doutrinas, quando ocupam uma posição que não deveriam ocupar, geram mais divisões que unidade, promovem mais separações e conflitos do que agregam e esclarecem nossas mentes.

Precisamos estudar aprofundar temas, discutir pautas e levar a Igreja para fora de seus muros. Mas definitivamente não faremos isso apertando os botões no teclado em nossas trincheiras e disparando contra as bases cristãs daqueles que, mesmo perfilados junto ao mesmo Senhor, têm recebido um chamado diferente do nosso. O Espírito pode ser o mesmo, mas a sua manifestação tem sido diferente. E temos sido tardios em perceber isso.

Se for zelo cristão, que vá lá. Mas se temos feito isso em nome de uma instituição, que seja anátema. Se defendemos cargos e salários, fora daqui com sua hipocrisia.

Que o Reino seja anunciado acima de todas as nossas diferenças, até mesmo acima da Igreja, pois que aquele comporta esta.

Magno Paganelli, Pr.

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