O Cristianismo e a Pobreza

O cristianismo, segundo o entendimento materialista da pobreza, seguida pelos partidários da “igreja dos pobres”, só aceitaria pobres entre seus seguidores e só eles entrariam no Reino dos Céus. A primeira dificuldade seria determinar quem é pobre ou rico e com base em qual nível de renda isso seria feito.

O conceito evangélico de pobreza não se refere à carência de bens materiais, mas à humildade como qualidade espiritual. Cristo fala aos pobres em outra dimensão do ser humano, ignorada ou menosprezada pelos materialistas. O contrário do pobre, nessa dimensão, não é o rico em bens materiais, mas o soberbo que, com base na riqueza material ou no poder, deprecia os demais e pensa que não necessita de Deus.

O dinheiro em si não é nem bom nem mal. Tudo depende do uso que dele fazemos. Um uso prudente e liberal do dinheiro é louvável. Um uso arrogante e esbanjador é desprezível. Inteligência, imaginação e princípios morais determinam nossas escolhas em como empregar o dinheiro. Para fazer boas escolhas econômicas, incluindo as escolhas das formas da utilização do dinheiro, todo indivíduo deve olhar para além da lei da oferta e procura, e para além das tabelas de juros, na direção dos ensinamentos religiosos, filosóficos e da literatura. O principal fundador da moderna Economia, Adam Smith, foi um professor de filosofia moral. Para usarmos bem o dinheiro, precisamos entender que acima das leis da Economia, existem as leis da moralidade.

A falta de entendimento desses princípios, não é novidade, no Evangelho de Marcos no capítulo 14 dos versos três ao nove, temos uma passagem que relata esse tipo de comportamento, sem relação com a dimensão espiritual do homem:

(3) E, estando ele em Betânia assentado {à mesa,} em casa de Simão, o leproso, veio uma mulher que trazia um vaso de alabastro, com ungüento de nardo puro, de muito preço, e, quebrando o vaso, lho derramou sobre a cabeça. (4) E alguns houve que em si mesmos se indignaram e disseram: Para que se fez este desperdício de ungüento? (5) Porque podia vender-se por mais de trezentos dinheiros e dá-lo aos pobres. E bramavam contra ela. (6) Jesus, porém, disse: Deixai-a, para que a molestais? Ela fez-me boa obra. (7) Porque sempre tendes os pobres convosco e podeis fazer-lhes bem, quando quiserdes; mas a mim nem sempre me tendes. (8) Esta fez o que podia; antecipou-se a ungir o meu corpo para a sepultura. (9) Em verdade vos digo que, em todas as partes do mundo onde este evangelho for pregado, também o que ela fez será contado para sua memória”.

O texto bíblico relata o desprendimento e a liberalidade de uma mulher com relação ao valor investido em um perfume. Por outro lado o texto também apresenta a hipocrisia de alguns dos presentes.

A liberalidade demonstrou o verdadeiro sentimento que aquela mulher nutria por Cristo, levando-a ao extremo para realizar um ato de adoração.

A hipocrisia de alguns presentes foi aflorada pelas palavras “Para que se fez este desperdício de ungüento? Porque podia vender-se por mais de trezentos dinheiros e dá-lo aos pobres”. Devemos lembrar que Marcos era coletor de impostos e mantinha bons relacionamentos na sociedade. Os amigos de Marcos eram ricos em bens materiais e soberbos, que com base na riqueza material e no poder, depreciavam os demais.

A hipocrisia fica evidente, pois eram ricos em bens materiais, porém nunca auxiliaram os pobres, não contribuíam para aliviar o sofrimento dos mais necessitados, mas na presença de Cristo, vestem uma mascara para se apresentarem como compadecidos das necessidades alheias, preocupados com o desperdício que poderia ser convertido em dinheiro para auxiliar os mais necessitados. Palavras sem ação são apenas palavras lançadas ao vento e destinadas ao esquecimento. O adágio popular “Fala, mas não faz”, fica patente nessa situação.

A pobreza tem vários aspectos, não se restringe apenas aos bens materiais. Existem pobres e inúmeras formas de pobreza: sentimentos, pensamentos, caráter, amor, compaixão, atitudes, relacionamentos enfim sobre todos os aspectos da vida pode haver pobreza.

Uma atitude para o bem comum, por menor que seja, demonstra a riqueza de caráter da pessoa. Ela apaga e supera a pobreza material. Ações individuais, aparentemente sem valor, não devem ser desprezadas, pois fazem parte de uma obra maior. A participação individual seja trabalhando, seja contribuindo ou realizando qualquer atividade que tenha por objetivo minimizar o sofrimento e a pobreza, devem ser mantidas, pois esses milhares ou até milhões de ações individuais comporão uma ação global.

O texto bíblico relata que o Senhor Jesus apoiou e confirmou a ação individual daquela mulher: “Esta fez o que podia”, assim a ação individual foi honrada. Com estas palavras nós aprendemos que nossa ação individual é importante e deve ser realizada, independentemente da critica dos demais. Fazer o que é possível, sem alarde, sem propaganda, sem esperar o reconhecimento daquele que recebe a ação.

O cristão receberá o reconhecimento, por suas ações, do Senhor Jesus, como aquela mulher foi honrada e sua atitude reconhecida: “Em verdade vos digo que, em todas as partes do mundo onde este evangelho for pregado, também o que ela fez será contado para sua memória”.

O teólogo Agostinho interpretou o relacionamento da pobreza com o cristianismo da seguinte forma: “Aprendeis a ser pobres e necessitados e a possuir algo neste mundo como se nada possuirdes. Porque existem mendigos repletos de orgulho e ricos que confessam seus pecados. Deus resiste aos orgulhosos, mesmo que estejam cobertos de sedas ou de farrapos, mas concede graça aos humildes, possuam eles bens materiais ou não”.

A pobreza material poderá ser minimizada, através de nossas ações, porém não será erradicada, pois no texto bíblico também tiramos uma lição: “Porque sempre tendes os pobres convosco e podeis fazer-lhes bem, quando quiserdes”.

As ações para minimizar as necessidades dos mais carentes, dependem de nossa vontade e das boas escolhas econômicas. Ela somente será realizada se desejarmos e efetivamente agirmos.

A doutrina cristã enxerga a pobreza através de dois aspectos o material e o espiritual, portanto de forma oposta aos materialistas. O princípio do cristianismo é o resgate da alma do homem e restabelecer o seu relacionamento com Deus. O Senhor Jesus em uma de suas mais famosas preleções lançou a assertiva: “Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus”.

O homem caiu. Desprezou seu relacionamento com Deus, tornaram-se arrogantes, prepotentes, gananciosos, soberbos, pecadores, avarentos, invejosos entre outras coisas, tornando-se pobre, perdido e pecador. Em outro ponto da preleção de Jesus fica evidentes a ocupação do cristianismo com a plenitude do homem, pois o Senhor Jesus declara: “Mas buscai primeiro o reino de Deus e a sua justiça e todas estas coisas vos serão acrescentadas”.

O Senhor Jesus mostra a verdadeira escala de valores: o corpo vale mais que o vestuário, a vida vale mais que a comida que sustenta e acima dessas coisas terrenas está a comunhão espiritual com Deus. Quem dá a Deus a posição central em sua vida, gozará do Seu cuidado onipotente e eterno.

Cada um faça sua parte conforme proposto em seu coração.

Os ricos poderosos também devem fazer sua parte em primeiro lugar reconhecendo e confessando seus pecados (avareza, arrogância, prepotência etc) e de alma limpa buscar o bem comum.

A atitude dos poderosos poderá ser mudada se as palavras do candidato democrata a presidência dos Estados Unidos, forem sinceras, verdadeiras e principalmente se vier a tomar posse promova a radical alteração do quadro apresentado: “O principal fracasso moral do país foi a ajuda insuficiente que deu aos menos favorecidos” (Barack Obama, em fórum mediado pelo Pastor Rick Warren na Igreja Saddleback em agosto de 2008).

Chegada, pois, a tarde daquele dia, o primeiro da semana, e cerradas as portas onde os discípulos, com medo dos judeus, se tinham ajuntado, chegou Jesus, e pôs-se no meio, e disse-lhes: Paz seja convosco.

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